Biofilia: viver com os mortos

(2015)


Com embalsamamento e os instrumentos apropriados a participação das pessoas nas atividades familiares não precisa ser interrompida com a morte biológica.

Em palestra para o TED, a antropóloga Kelli Swazey (2013) apresenta os desdobramentos da cultura fúnebre da sociedade de Tana Toraja, no leste da Indonésia. Nessa sociedade os funerais são cerimônias extravagantes envolvendo toda a aldeia, e podem durar de dias a semanas. Famílias precisam economizar por longos períodos de tempo para levantar recursos para um funeral luxuoso, onde um búfalo é sacrificado para garantir que a alma do falecido seja elevada ao céu. Até aquele momento - o que pode ocorrer anos após a morte física - o parente morto é conhecido, no dialeto local, simplesmente como "uma pessoa que está doente", ou até mesmo “uma pessoa que está dormindo". Eles ficam deitados em salas especiais na casa da família, onde são simbolicamente alimentados, cuidados e eventualmente levados ao ar livre (Figura 30) uma parte muito importante da vida de seu parente.

A inclusão das múmias no cotidiano Toraja demonstra que rejeição, asco e o medo em volta dos cadáveres é um fenômeno cultural, e que não são sentimentos intrínsecos a todo ser humano, mas uma construção social.

Tendo isso em vista, criou-se uma série de imagens (Figuras 26 - 29) para imaginar a situ- ação hipotética de se conviver no Ocidente com o corpo de familiares mortos. “Como entender melhor o efeito daquele corpo sobre atividades regulares de uma família? O que seria preciso, em termos operacionais para viabilizar a realização de atividades em família com presença de um cadáver?” foram questões que apareceram no meio do processo. Mas a questão mais básica por trás dessa experiência diz respeito ao entendimento de que as relações e laços afetivos em família não precisam acabar com a morte de um ente querido. Em outras palavras as imagens dizem respeito a dissociação da “vida social” e da “vida biológica”.

Além dos desenhos, foi especulada também uma performance que aqui cabe somente enquanto enunciado: “Como protótipo da experiência proposta, designer conviveria com um cadáver por tempo previamente determinado ou embalsamaria um cadáver”. Acompanhar a decomposição de um cachorro dentro de casa e projetar objetos que viabilizassem essa interação seriam outras formas de colocar em cheque a experiência pessoal e ao mesmo tempo oportunizar criação de novas estratégias para os problemas que ainda não tivessem sido considerados, uma espécie de método performativo de design.